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"NÃO ACREDITE EM NADA QUE SEU PROFESSOR DIZ! QUESTIONE TUDO!


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sexta-feira, 4 de março de 2016

A INTERDISCIPLINARIDADE E A TRANSDISCIPLINARIDADE NA FORMAÇÃO DOS ESTUDANTES DE MÚSICA

"Em conversa com o amigo Edgard de Brito, um exemplo de músico e incansável soldado em luta para levar o maior conhecimento possível aos seus alunos, eu observava a ele que talvez a única coisa produtiva que realizei no meu curso de Licenciatura em Música foi poder, através de minha monografia intitulada “A INTERDISCIPLINARIDADE E A TRANSDISCIPLINARIDADE NA FORMAÇÃO DOS ESTUDANTES DE MÚSICA” (2006), sugerir aos professores e estudantes de música que existe, da parte da maioria deles um descaso quanto ao enriquecimento cultural como um todo e que este se reflete numa ignorância musical generalizada. O objetivo central da pesquisa foi tentar demonstrar com exemplos tirados de casos específicos e também da boca de grandes mestres, que não somente o estudo da técnica e da história da música (em alguns casos até esta menosprezada), se faz necessário, mas também um enriquecimento intelectual e sensível como um todo, uma aproximação da poesia, da pintura, da escultura, da literatura, da filosofia e mesmo da ciência, é de fundamental importância para que se proceda uma aproximação maximizada, um entendimento maior do todo, e um mais amplo aproveitamento da música. Sempre vi a “Imagem Musical” criada e ministrada pelo professor Edgard, como a única filosofia de ensino do universo musical em nossa região, que busca atingir estes objetivos. Ele me pediu um resumo de uma pequena parte de meu trabalho. Envio agora para que ele avalie se estas palavras têm alguma utilidade para se tornar uma contribuição para este conceito de entendimento da arte e especificamente do ensino de tudo relacionado à música, objetivos estes, que, apesar de eu não ter, nem de longe, a competência de meu amigo para ministrar, compartilho com ele este ideal."

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A INTERDISCIPLINARIDADE E A TRANSDISCIPLINARIDADE NA FORMAÇÃO DOS ESTUDANTES DE MÚSICA


Les parfums, les couleurs et les sons se répondent
                                                      Charles Baudelaire


Texto da monografia de Flávio Caldonazzo.

(Resumo de algumas partes)

Vivemos uma contaminação com o vírus do desinteresse de gerações de estudantes e de professores que se deixam envolver pelo marasmo da tranquilidade do mínimo, e não se aventuram a buscar a transformação deste estado. Existem, logicamente, razões para este estado de inércia em relação à modificação das políticas educacionais. Uma delas está ligada a um programa de acesso irrestrito à educação, porém uma educação que acaba sendo massificada e sem qualidade, que é a única que não oferece perigo para que se orientem as pessoas a refletir de forma inteligente e participativa, o que seria uma ameaça para o sistema neoliberal excludente atual. Desta forma esta educação alienante se detém em um ensino precário e apático que acaba por ser também o responsável por esta doença de estagnação cultural, agravada pelo distanciamento do interesse pela leitura e pela alienação político-social, que sem dúvida é o primeiro ponto a ser reformado para se começar a andar em direção a transdisciplinaridade.
Vejamos o que a esse propósito têm a dizer Paulo Freire:
[...] O educador não pode furtar-se, em determinados momentos, de informar. E não pode na medida mesma em que conhecer não é adivinhar. O fundamental, porém, é que a informação seja sempre precedida e associada a problematização do objeto em torno de cujo conhecimento ele dá esta ou aquela informação. 1982, p.54)

Os professores que têm uma formação adequada para serem motivadores desta transformação terão um trabalho árduo e, muitas vezes, solitário, mas para que algum progresso venha a ser conquistado há que se deter em uma questão que pode ser o primeiro fator que deve ser revertido: o hábito da leitura. Mais ainda, o hábito da releitura e da reflexão sobre o que se lê. Esta reflexão corresponde certamente a uma observação atenta de tudo que o indivíduo encontra no caminho de suas pesquisas, uma audição criteriosa e atenta das obras musicais, a reação crítica diante da programação da televisão, a postura política diante das notícias da imprensa escrita ou televisionada. Tudo isso são os fundamentos que levarão a uma ampliação das perspectivas daquele que estuda ou daquele que ensina. 

Pensando particularmente no estudante de música, ao qual sempre temos que retornar, para que não se desvie o objetivo central do trabalho, muito embora este objetivo central esteja definitivamente atrelado às questões político-sociais abordadas acima, podemos citar Nikolaus Hanoncourt que nos lembra a observação que, a propósito da leitura, fez o compositor romântico alemão Johannes Brahms (1833-1897): “Brahms dizia que para tornar-se um bom músico era preciso empregar tanto tempo lendo quanto estudando piano”.(BRAHMS, apud HANONCOURT, 1998, p. 31).

O estudante de música, ou de qualquer matéria, deveria, pois, reconhecer que a sua formação completa está vinculada a esta postura de um estudo comparativo de todas as artes, textos, experiências, tradições populares ou eruditas, de todas as pinturas que puder observar, de todos os filmes e peças teatrais que puder assistir com a finalidade de ampliarem seus horizontes perceptivos, exercitando sua mente no sentido de absorver tudo e formular pensamentos e conclusões, seguramente estarão dando passos seguros, criando condições para a realização máxima de suas potencialidades e consolidando o seu aprendizado.

Da mesma forma, um professor comprometido, que fosse amparado por uma instituição igualmente comprometida não consideraria desnecessária a preocupação com a existência de um abandono de matérias que parecem ser antes muito mais próximas do que distantes de todos os temas. Se pensarmos que nos cursos de artes, de literatura ou filosofia, existem critérios de relação íntima entre todas estas disciplinas, tal preocupação de uma maior atenção à multiplicidade é mais do que justificável. Basta para se ter certeza disso, pensar em como na realização de seus trabalhos, os compositores, escritores, pintores e filósofos foram motivados e inspirados por temas clássicos, pelo folclore, por costumes diversificados, fossem eles universais ou regionais e que estes temas desempenharam papel muito relevante em muitas criações artísticas. Não raras vezes a familiaridade com assuntos diversificados, serão a chave principal na inteligibilidade de algum termo importante para um contexto interpretativo onde se nota que o que aparentemente poderia ser considerado desnecessário ao estudante, pode sob outro prisma de avaliação ser essencial. 

No curso de Interpretação Musical o pianista e regente suíço Alfred Cortot (1877 – 1962), afirmou: [...] Poderíamos sustentar que não há arte que, acima da interpretação musical, suponha o manejo delicado, a compreensão requintada de todos os tipos de emoções ou de sensação que se trata de transferir ao espírito do ouvinte pela magia misteriosa das sonoridades. Rousseau afirmou: ‘Para se elevar às grandes expressões da música, seria necessário ter feito um estudo particular das paixões humanas e da linguagem da natureza’.Tolstoi acrescenta: ‘A arte é a comunicação dos sentimentos experimentados’.(CORTOT apud THIEFFRY, 1986, p.16)

Estes exemplos são, no entanto, apenas algumas gotas no oceano de disciplinas de formação das quais se deveriam fornecer, pelo menos, os conceitos básicos mais importantes, se quisermos que as gerações futuras não se entreguem definitivamente a uma especialização extrema que acabe por tornar todos ignorantes em tudo que não é a sua micro especialidade. Um dos exemplos mais significativos de professor bem-sucedido e que sempre valoriza na cultura (para retornar ao início deste capítulo) a vida essencial existente nela, é o do educador e psicólogo mineiro Rubem Alves. Existe em todos os textos de Rubem Alves, um entendimento e uma vivacidade que mostram aspectos culturais que ele chama à luz em todo momento ao construir os seus escritos, que são os mais variados. Embora demonstrando um vasto e eclético conhecimento cultural, em seus textos jamais transparece a menor sombra de pedantismo ou arrogância. Torna-se evidente que este autor-educador, é alguém que tendo galgado os degraus até um estágio de compreensão ampla, reconhece na simplicidade de tudo todas as coisas que ele viveu ou leu, equiparadas e igualitárias. Não atribuiu, ele, à filosofia de um pensador famoso ou a uma Paixão de Bach um peso maior do que o de um causo que ouviu de um caipira, ou a uma moda de viola, tocada e cantada em uma cozinha de uma velha casa do interior dos país. Não deixa, no entanto, de chamar como sua testemunha, ao contar suas histórias, seja uma superstição da roça, uma concepção filosófica de origem europeia, ou um poema de autor famoso. E nestas relações, lê, compreende e enxerga a unidade da arquitetura do todo e depois nos informa sobre uma beleza e empatia entre tudo isso de maneira sincera em seus escritos. Isto pode ser observado ao lermos alguns trechos de escritos de Rubem Alves que demonstram o trânsito fácil deste autor (notadamente um autor contrário à valorização da rigidez de pensamento ou no conhecimento) por áreas da cultura, para tentarmos continuar demonstrando, a necessidade de se passar por estágios de aprendizado, para podermos conquistar a liberdade de pensamento e de escolha: [...] Comecei a gostar dos livros mesmo antes de saber ler. Descobri que os livros eram um tapete mágico que me levavam instantaneamente a viajar pelo mundo... Lendo, eu deixava de ser o menino pobre que era e me tornava um outro. [...] Eu passava horas vendo as figuras e não me cansava de vê-las de novo [...] Um outro livro que me encantava era o “Jeca Tatu”, do Monteiro Lobato. Começava assim: “Jeca Tatu era um pobre caboclo...” De tanto ouvir a estória lida para mim, acabei por sabe-lo de cor. “De cor”: no coração. Aquilo que o coração ama não é jamais esquecido. [...] Florais de Bach: confesso minha ignorância. Nada sei sobre os seus poderes. Mas sei muito sobre os poderes terapêuticos dos “Corais de Bach”. A música tem poderes mágicos. [...] Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos “conhecimento de palavras e ignorância da Palavra”. A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. (http://www.rubemalves.com.br/).

Um ponto importante que se pretende demonstrar também, é que a conclusão de que tomar a decisão de se deixar de lado estudos que deem uma noção razoável da cultura e do pensamento de importantes autores antigos, modernos, ou contemporâneos, sem tentar encontrar alguma solução alternativa que possibilite um convívio mais próximo com estes estudos, não parece ser algo inteligente e que contribua para a melhoria do ensino. Ainda que esta atitude não torne os cursos mais rápidos, a preocupação em ministrar pelo menos as bases e os aspectos principais dos conhecimentos clássicos, e de outros, deveria ser encarada como ferramenta fundamental à realização de uma prática adequada na busca da excelência no ensino. A solução pode ser a fomentação da pesquisa, da indagação, e isso só será possível através do emprego de uma nova política educacional que valorize professores capazes de abraçar esta filosofia de ensino, sendo modernos na condução das aulas, sem desprezar, por descaso ou desconhecimento, o ensino da cultura e do pensamento de todas as épocas.

Existe um exemplo muito interessante que trata desta postura mais aberta na educação, de como se deve colocar os alunos em contato com os conhecimentos clássicos, e critica as formas ortodoxas de se lecionar, no famoso filme americano, intitulado, “Dead Poets Society”  (Sociedade dos Poetas Mortos), realizado em 1989 pelo diretor Peter L. Weir. Neste filme o personagem vivido pelo ator Robin Williams, o professor Keating, em sua aula inaugural, diz para os seus alunos rasgarem a introdução de um compêndio de poesia que a escola utilizava no programa do curso. Ele toma esta atitude, como fica claro, por discordar da forma fria, morta, e apenas geométrica, que o autor do ensaio introdutório do livro, demonstrava tratar a poesia, que para ele, deve ser sentida de maneira viva e apaixonada. No entanto, no decorrer do filme, em nenhum momento ele se coloca contra a necessidade de se aprofundar na leitura dos grandes autores, mas o contrário é o que acontece. Isto fica demonstrado quando, ao contar aos seus alunos sobre a sociedade que ele integrara na sua época de aluno daquela Instituição, os poetas mortos, diz-lhes que eles eram como uma irmandade grega, e também românticos. Que se revezavam, nos seus encontros, na leitura dos grandes escritores e na récita de poemas deles próprios. Porém o que difere aquele professor de outros daquela escola, e que ao ensina-los, ele os deixa “transgredir” as normas obsoletas da escola, joga futebol com os alunos, ensina a eles expressão corporal e como extrair de si mesmos os seus próprios poemas.

O compositor Russo, Igor Stravinsky, não obstante as inúmeras inovações realizadas em suas composições, ou talvez por isso mesmo, afirma que para ele é de fundamental importância o conhecimento das antigas formas, demonstrando isso, neste trecho de sua Poética Musical em Seis Lições: [...] Minha liberdade, portanto, consiste em mover-me dentro da estreita moldura que estabeleci para mim mesmo em cada um de meus empreendimentos. Irei ainda mais longe: minha liberdade será tanto maior e mais significativa quanto mais estritamente eu estabelecer meu campo de atuação, e mais me cercar de obstáculos. Tudo o que diminui a restrição diminui a força. Quanto mais restrições nos impusermos, mais libertamos nossa personalidade dos grilhões que aprisionam o espírito[...]De tudo isso concluímos pela necessidade de dogmatizar sob pena de perder o nosso objetivo. Se estas palavras nos incomodam e parecem duras, podemos abster-nos de pronunciá-las. 

Apesar disso, elas contêm o segredo da salvação. ‘É evidente — escreve Baudelaire — ‘que a retórica e a prosódia não são tiranias inventadas arbitrariamente, mas uma coleção de regras exigidas pela própria organização da realidade do espírito, e jamais a prosódia e a retórica impediram a originalidade de manifestar-se plenamente. O contrário, isto é, que contribuíram para o florescimento da originalidade, seria infinitamente mais verdadeiro’. (STRAVINSKY, 1996, p.65)

Sob um aspecto diferente, outro importante compositor do século XX, Arnold Schöenberg (1874-1951), especialmente significativo por ter sido o precursor de um novo sistema de composição musical, e por conseguinte, de inquestionáveis ideais modernistas, se não compartilha de todas as opiniões de Stravinsky, quanto ao retorno a formas antigas, as utilizava, em aulas, tendo escrito um tratado composto de três partes: Structural Funcions of Harmony (Williams & Norgate, 1954), Preliminary Exercises in Counterpoint ( Faber & Faber, 1963), e Fundamentals of Musical Compositions (Estate of Gertrude Schönberg). Estes tratados, que resultaram de seus ensinamentos nos Estados Unidos, eram dirigidos, segundo suas palavras, “aos estudantes médios das universidades, assim como aos estudantes talentosos que almejam tornar-se compositores”. Observava também o compositor da Segunda Escola de Viena, que: “as formas-padrão simplificadas, que não correspondem sempre às formas artísticas, auxiliarão o estudante a adquirir o senso formal e o conhecimento dos fundamentos da construção” (SCHÖENBERG:1991,p.28). Querendo nos dizer que, não necessariamente, somente os modelos utilizados pelos mestres antigos são importantes, mas também os novos, que podiam inclusive ser construídos no momento das lições. De onde decorre que se os valores estáticos são nocivos a uma educação para a liberdade de pensamento, para a autonomia, e para a criatividade, também poderíamos afiançar que a desvalorização de lições já conquistadas pelo homem na sua formação intelecto-cultural também será um fator prejudicial a esta mesma educação.

Poderíamos ainda observar que ao construir novos modelos e registra-los, um dia eles se tornarão fórmulas do passado e nem por isso deverão ser descartados. Se a atitude do homem tivesse sido a de ir abandonando o que era por ele mesmo conquistado através dos anos, não haveria registro de nada, e o homem, muito provavelmente, já teria sucumbido pela desvalorização de sua própria memória.

Paulo Freire, educador notadamente progressista, em um discurso seu, em um congresso, o qual gerou o livro, A Importância do Ato de Ler- em três artigos que se completam, fala sobre a importância de uma educação que tenha significado real aos educandos, muito particularmente àqueles, já adultos, que seriam alfabetizados através de um programa que o educador desenvolvia em São Tomé e Príncipe. Na ocasião ele comenta: [...] A insistência na quantidade de leituras sem o devido adentrar nos textos a serem compreendidos, e não mecanicamente memorizados, revela uma visão mágica da palavra escrita [...] parece importante, contanto, para evitar uma compreensão errônea do que estou afirmando, sublinhar que a minha crítica à marginalização da palavra não significa, de maneira alguma uma posição pouco responsável de minha parte com relação à necessidade que temos, educadores e educandos de ler, sempre e seriamente, os clássicos neste ou naquele campo do saber, de nos adentrarmos nos textos, de criar uma disciplina intelectual, sem a qual inviabilizamos a nossa prática enquanto professores e estudantes (grifo nosso). (1997, p.17)

Há necessidade de nos relacionarmos de uma forma mais próxima com os estudos, primando pelo estabelecimento de ligações entre as diversas áreas do conhecimento e a fomentação destes interesses nas escolas desde os cursos mais básicos até a universidade. A conservação de disciplinas que estão intimamente ligadas à facilitação do estabelecimento da transdisciplinaridade, à capacidade de apreender uma diversidade de pensamentos e matérias, é algo que somente pode trazer benefícios e contribuir de maneira efetiva para uma mudança de postura de alunos e professores.

Em relação à cultura clássica, aos textos históricos, poéticos, às artes e às ciências, devemos nos lembrar, que uma capacidade de produção variada, um talento para a diversidade de dons, algumas vezes reúne-se naturalmente em alguns indivíduos que realizam obras geniais. Certamente estes são exemplos de talentos extraordinários e especiais, mas que talvez não os tivessem desenvolvido, como o desenvolveram, se não tivessem uma mente investigativa que busca perscrutar todos os assuntos.
Foi este, por exemplo, o caso do alemão, Johann Wolfgang von Goethe (1749- 1832), que além de poeta, dramaturgo e romancista, desenhou e pintou, dedicando-se ainda aos estudos científicos, tendo desenvolvido alguns trabalhos nas ciências, entre eles, contribuindo, no campo da anatomia comparada, com a descoberta do osso intermaxilar no ser humano, e, na física, elaborou uma teoria das cores alternativa à do grande físico inglês Isaac Newton (1642-1727). Se não se encontra facilmente um Goethe, que não obstante seu talento inato, este teve de ser trabalhado e desenvolvido. Este seria, então, mais um motivo para que todos se empenhassem em facilitar para as pessoas comuns uma instrução mais abrangente e eficaz, pois mesmo não se podendo criar gênios há como nutrir mentes para que estas se desenvolvam críticas e criativas.

Relações 

Há ligação entre o ritmo de um verso e dos passos de uma dança, entre as notas tocadas em um instrumento e uma pintura, e estas duas últimas estão ainda interligadas à primeira. Isso pode ser observado de duas formas: uma delas é a da relação estética que têm objetivos e similaridades em comum, e a outra forma é a do relacionamento íntimo dos temas. Ao compor a sua peça musical intitulada D'Apres un lecture du Dante, o compositor húngaro, do período romântico da música, Franz Liszt (1811-1886), ligava-se assim àquele poeta antigo, que escreveu sua obra sem jamais imaginar, talvez, que esta obra falaria, vários séculos depois, à alma de um outro artista. Também, muito dificilmente, lhe passaria pela mente que este artista do futuro criaria uma música que carregaria, no seu íntimo, aquela necessidade de expressar o que sentiu o compositor ao ler aquele poeta, o qual foi o impulso inicial para a realização da referida obra. Assim se estabelece a troca, uma vez que, através da sua música, Liszt faz referência direta ao trabalho de Dante Alighieri (1265- 1321), o que instiga alguns a conhecer o poeta, enquanto outros, por intermédio de um prévio conhecimento das obras do mestre florentino podem vir a descobrir as melodias do compositor romântico.

Os níveis, e a diversidade de linguagens, em que isso ocorre são tantos, que pode até parecer fútil a análise destas relações quando nos deparamos, por exemplo, com relações oriundas de um desenho animado. Mas isso mesmo é o que faz com que sejam justificados o maior conhecimento e a melhor observação de um leque mais amplo de conhecimentos de obras artísticas. Muitas vezes a percepção e o aproveitamento maior ou menor do humor constante de um simples cartoon dependerá da maior ou menor familiaridade com estas relações. Pode se chamar à atenção para a utilização de reconhecimento de obras artísticas em muitos desenhos animados. Para citar apenas um exemplo, esta espécie de utilização pode ser constatada ao se assistir um desenho animado americano intitulado Cirrhosis of the Louvre da série Inspetor Clouseau, realizado pela MGM em 1966. Neste episódio do desenho existe no seu desfecho uma espécie de paródia. Uma citação visual da qual somente se atingirá o clímax da comicidade (que está atrelada ao reconhecimento de uma obra de arte) quem na última cena da animação reconhecer um famoso quadro intitulado: Arranjo em Cinza e Preto (retrato da mãe do artista), do pintor americano James Mcneill Whistler (1834-1903) Poderia se argumentar que é uma pretensão tola querer dar alguma importância a este fato e que o desenho certamente será apreciado independentemente disso. Isto não deixa de ser verdade, porém, o que de fato parece significativo relatar, é a observação de que aqueles que puderem, devido ao seu conhecimento de obras pictóricas, observar a citação realizada naquele momento final do cartoon, certamente serão mais agraciados do que outros no aproveitamento daquele elemento de comicidade que a animação traz, de forma brilhante, como um gran finale.

Para exemplificar um pouco mais a questão, recorremos mais uma vez ao já citado escritor Machado de Assis, com apenas mais um exemplo que ilustra de forma clara estas observações. Ao se chamar novamente este escritor em defesa desta pesquisa, isso é feito por ser ele talvez, dentro do panteão de escritores brasileiros, o que mais tenha lançado mão em seus livros, de uma comparação constante das mais diversificadas obras, autores e filosofias. E ao fazer isso, ao estabelecer estes contatos entre umas e outras, interligando-as, confere-lhes, devido esta mescla de ideias uma maior proximidade com os ideais da transdisciplinaridade.
Observemos, pois, o que ele escreve em 1892, em uma crônica para o jornal A Semana, do Rio de Janeiro: [...] Tannhäuser e bondes elétricos. Temos finalmente na terra essas grandes novidades. O empresário do teatro lírico fez-nos o favor de dar a famosa ópera de Wagner, enquanto a Companhia de Botafogo tomou a peito transportar-nos mais depressa. Cairão de uma vez o burro e Verdi? Tudo depende das circunstâncias. (ASSIS 1962, p.574)

O espectador (no caso aqui, leitor) mal informado, ao ler esta crônica não apreciará nesta introdução, algo que faz toda diferença para a compreensão do humor que traz este início do texto, um humor decorrente da comparação de um modernismo que se desenvolvia na música, com um outro recém inaugurado nos transportes, e a oposição destes elementos: o transporte moderno e o compositor Richard Wagner (simbolizando o desenvolvimento do drama musical moderno) versus o obsoleto burro e o compositor Giussepe Verdi (1813-1901) (simbolizando a persistência de formas tradicionais na composição de óperas). Pode ser difícil que esta observação contida neste texto de M. A., venha a ser lida por muitas pessoas, mesmo pensando em estudantes de letras, uma vez que suas crônicas não fazem parte de seus escritos mais célebres. Mas além de este ser um exemplo de um tipo de associação comum ao autor em todos os seus livros, o mais importante é pensar que estamos diante de uma condição necessária à amplitude de interpretação e compreensão ao olharmos para o trecho referido acima. Certamente não se pode esperar (voltamos a afirmar) que as pessoas possam conhecer de forma ilimitada as inúmeras metáforas e citações que aparecem em todas as obras, ou em todos os tipos de arte. Como, também, de maneira geral, não seria muito comum encontrar em profissionais que lidam com atividades mais afastadas das artes ou da literatura, como por exemplo, engenheiros químicos, cientistas, farmacêuticos, uma sintonia ou uma afinidade com os temas que proporcionassem uma maior facilidade em reconhecer tais referências. A não ser que, no caso específico da crônica citada, estes profissionais tenham por hobby a literatura e a ópera, sendo que ainda assim, em muitos casos, seria difícil o reconhecimento das relações entre os temas para muitos amadores. 

Mas se pensarmos em um estudante de música que esteja muitas vezes mais voltado para as questões práticas do instrumento, e que não procure se aprofundar nos aspectos de interdependência que existe no estudo dos períodos musicais, nas suas diversas tendências, filosofias e de estilo de composição, ou em um estudante de letras que embora possa se dedicar ao estudo literário, não trafegue muito bem por outras artes e desconheça as escolas e períodos da história da música, é muito provável que estes estudantes se por acaso se depararem com o trecho daquela crônica, não poderão saber quais os antagonismos separavam ou separam estes dois compositores de ópera, Wagner e Verdi. Neste caso poderíamos considerar isso uma deficiência na sua formação histórico-musical-literária, caso este estudante não pudesse atinar com o sentido da comparação destas divergências, com aquelas realidades práticas da tecnologia moderna que é colocada pelo escritor. Isto certamente o faria perder, entre outras coisas, pelo menos no momento da leitura deste texto, a oportunidade de absorver a beleza da sutil ironia colocada diante dele, e esta deficiência o tornaria incapaz de ser agente de continuação desta forma ampla de visão multidisciplinar. Da mesma forma, seria incompleta a formação de um professor de literatura, que ao ler o início da crônica, não soubesse, se lhe fosse solicitado que o fizesse, explicar aos seus alunos, o porquê de o autor citar estes dois nomes neste contexto. Logicamente isso poderia ser pesquisado posteriormente, mas o manejo ideal das relações disciplinares pressupõe uma familiaridade ampla com a diversidade de matérias, e aqueles que a tiverem serão professores diferenciados e bem sucedidos.

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E aí alunos e professores de música???? O que acham de correr para a biblioteca de sua cidade e devorar alguns livros? 

Nas antigas coleções de discos de vinil - Mestre da Música - sempre com a música, tínhamos lá um livreto contando toda a história do compositor e também um guia para orientar o ouvinte em suas audições. Todos os cds originais de boa qualidade informam o conteúdo de suas obras, assim como a ficha técnica; tão importante conhecer como a própria música. 

É caros leitores deste ambiente virtual, é preciso correr atrás das irmãs-arte para se aprender música..

E o que vocês estão esperando???

Obrigado amigo Flávio Caldonazzo pelas sábias palavras...............


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Lançamento - Ismael Tiso! Ventos do Sul!

É com muita alegria que começamos nosso primeiro post de 2016 e não podia ser outro, senão o Lançamento do álbum Ventos do Sul de Ismael Tiso.



Sâo 7 faixas preciosas meus amigos..........arrebatadoras.............tornando-se "existir", forte, perene, fogo que emerge.......lei silenciosa que nada impõe, que verte em alma de sons aquilo que a imortalidade dialogará com o infinito.....obrigatório para os cd maníacos da música boa.

Sim, o presente se deu em dezembro de 2015, que chegou esta maravilha de cd em formato físico. Que adentre em bom tom agora também, e que trilhe um caminho próspero.

E que honra um Conservatório, vulgo Conservatório Heltor Villa-lobos de Três Pontas ter um artista deste nível e mais ainda, este artista ser um dos professores de guitarra da escola. 

É para comemorar, para se fazer dádiva. É um acontecimento meus amigos. Se eu fosse o "rei" decretaria feriado municipal e com certeza iria parar tudo. Faria o dia "Ismael Tiso..." pararia os relógios e deixaria a escola poder ter o privílégio de ouvir o que este artista tem a dizer, tem a sonhar - sons!..........e com certeza deixaria as 7 canções, ou 7 ninfas, se assim preferirem, voarem pelos ares deste conservatório...... ....

"E vai que dá certo.........todo ano ter o dia Ismael Tiso e ele lançar 1 maravilha em cd por ano!"

Parabéns Ismael Tiso por esta realização. Para o criador, ver sua obra consagrada, lançada à eternidade, é a razão e presente maior para que venham outros...


Cd Ismael Tiso - ventos do Sul!

(Cd Exclusivo e super lançamento deste jovem compositor de Três Pontas, com um trabalho autoral impecável e de qualidade surpreendente. É sem dúvida nossa dica máxima dos últimos tempos, O cd tem uma sonoridade inovadora, ousada e vai levá-lo sem dúvida a conhecer os Ventos do Sul e outras pérolas que marcam já o sucesso desta obra.)


Ismael Tiso é multi-instrumentista e compositor. Atuou como músico no disco "E a gente sonhando" de Milton Nascimento tocando violões, guitarra, vocais e teve a sua canção - Do Samba, do jazz,  do menino e do bueiro, também gravada por Milton neste disco.)


Este seu primeiro trabalho - Ventos do Sul - traz novas possibilidades para a chamada música mineira. É música sofisticada. O disco traz novos despertares, deslumbramentos musicais e definitivamente, caminhos harmônicos e possibilidades melódicas surpreendentes.


O disco traz os músicos em sua formação e participações especiais:


Ismael Tiso - vocais, composições, violões e guitarra
Clayton Prosperi - Vocais e piano elétrico.
Dedê Bonito - Baixo
Iago Tiso - Bateria
Lissandro Massa - Piano acústico e fender rhodes
Paulo Francisco Tutuca - Vocais
Tom Nunes - Sax Tenor
Helcio Baroni - Piano elétrico
Marly Tiso - Flautas


Produção e arranjos - Ismael Tiso
Mixagem: Marco Elizeo Mesquita e Ismael Tiso
Masterização: Marlon C.P. Almeida


Ouça e adquira esta obra-prima:
https://soundcloud.com/ismaeltiso/aprimeira











sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Beethoven "Supreme"! A "Eroica!"

Ludwig Van Beethoven - 1770-1827

...Esta semana fui visitar a caverna mágica de meu amigo Flávio Caldonazzo, caverna esta cercada por tantos gigantes da arte. Seu recanto é sublime e aconchegante . Lá, a hora é imortalizada de prazer e deleite. É o perpetuar da amizade e da troca. E como aprendo ouvindo as histórias que ele me conta. De música, literatura, cinema, pintura, psicologia e tudo mais.....................mas o que temos em comum é certamente este desejo de compartilhar estes universos supremos da Arte. E assim em horas a fio de conversas e conversas, Flávio Caldonazzo brada e me diz que precisa ler um texto: E assim me ponho a todos "ouvidos" a entrar neste texto formidável que ele lê e fico ao final da leitura, estupefato e sem reação.

Nada mais que Beethoven! Nada mais que a Sinfonia que definitivamente mudou os rumos da História da Mùsica. A "Eroica!"

Com a palavra o crítico e jornalista:
*H.L.MENCKEN*

BEETHOVEN

Beethoven foi um daqueles homens cuja estatura, vista em retrospecto, só parece crescer. Quantos movimentos não surgiram para pô-lo definitivamente na prateleira? Pelo menos uns dez nos cem anos desde a sua morte. 

Houve um em Nova York, em 1917, lançado por críticos bocós e estimulado pela febre da guerra: pregava que o lugar de Beethoven seria tomado por profetas das novas luzes, como Stravinski. O saldo daquele movimento foi o de que a melhor orquestra da América foi a falência – e Beethoven sobreviveu sem um arranhão. 

Claro que o século XIX não foi deficiente em grandes músicos. Produziu Schubert, Schumann, Chopin, Wagner e Brahms, para não citar hordas inteiras de Dvoráks, Tchaikovskis, Debussys, Verdis e Puccinis. Nenhum deles nos deu nada melhor do que o primeiro movimento da Heróica. Aquele movimento, o primeiro desafio da nova música, continua a ser a última palavra. É a peça mais nobre de música absoluta já escrita em forma de sonata e é também a mais nobre em música descritiva. Em Beethoven, a distinção entre as duas formas era puramente imaginária. Tudo que ele escreveu era, de certa forma, descritivo, incluindo até as primeiras duas sinfonias, e tudo era música absoluta. Deve ter sido uma brincadeira dos deuses, a de opor Beethoven, em seus primeiros dias de Viena, ao papa Haydn. 

Haydn era inegavelmente um gênio e, depois da morte de Mozart, não tinha qualquer razão aparente para temer um rival. Se ele não criou realmente a sinfonia como a conhecemos hoje, pelo menos enriqueceu a forma com suas primeiras autênticas obras-primas – e não com uma ou duas, mas literalmente com dezenas. As mais complexas harmonias pareciam jorrar dele como petróleo de um poço. Mais ainda, sabia como dominá-las, porque era um mestre da arquitetura musical. Mas, quando Beethoven entrou em cena, o velho Haydn teve de descer um degrau. Era uma gazela contra um touro: com um bramido, o combate**terminou. 

Os músicos costumam ver neste combate uma mera disputa entre técnicos. Admitem que a habilidade e engenhosidade de Beethoven eram muitíssimo maiores – que tinha um controle mais seguro sobre seu material, mais ousadia e criatividade, um conhecimento muito maior da dinâmica, dos ritmos e dos matizes –, em suma, uma musicalidade tremendamente superior. Mas não foi isto que o tornou tão superior a Haydn – porque este também tinha suas superioridades: por exemplo, seu constante estado de alerta inventivo, sua capacidade para escrever melhores canções. O que alçou Beethoven acima do velho mestre foi a sua dignidade como homem.

 Os sentimentos expressos por Haydn pareciam os de um pároco de aldeia, de um corretor da Bolsa ou de um violista carinhosamente enternecido por Kulmbacher. Quando chorava, era com as lágrimas de uma mulher que acaba de descobrir uma nova ruga; quando se mostrava feliz, era com a alegria de uma criança na manhã de Natal. Em contrapartida, os sentimentos que Beethoven punha em sua música eram os sentimentos de um deus. Havia algo de olímpico em suas iras e rosnados; e, quando gargalhava, era com um toque do fogo do inferno. Literalmente, não há um traço de vulgaridade em toda a sua obra. Nunca é doce ou romântico; nunca derrama lágrimas convencionais; nunca toma atitudes ortodoxas. Em suas passagens mais ligeiras, há a imensa e inescapável dignidade dos velhos profetas. Ele se preocupa, não com as agonias transitórias do amor romântico, mas com a eterna tragédia do homem. Ê um grande poeta trágico e, como todos os grandes poetas trágicos, obcecado pela inescrutável falta de sentido da vida. 

Da "Heróica "em diante, raramente desligou-se deste tema. Ele ruge através do primeiro movimento da "Dó Menor "e chega à sua estupenda declaração final na "Nona". Tudo isto era novo em sua época, causando murmúrios de surpresa e até indignação.

 O passo dado, da Júpiter de Mozart para o primeiro movimento da Heróica, foi perturbador; os vienenses começaram a ficar inquietos em suas primeiras filas. Mas havia um entre eles que não se inquietou, e chamava-se Franz Schubert. Consulte o primeiro movimento da sua "Inacabada "ou o lento andamento da Trágica e constate como o exemplo de Beethoven foi rapidamente seguido – e com que gênio. Houve um longo hiato depois disto, até que o dia 6 de novembro de 1876 amanheceu em Karlsruhe e, com ele, veio a primeira apresentação da Dó Menor de Brahms. Mais uma vez os deuses tinham entrado numa sala de concerto – e entrarão de novo quando nascer outro Brahms, não antes, porque nada pode sair de um artista que já não esteja no homem. 

O que minimiza a música e todos os Tchaikovskis, Mendelssohns e Chopins? Ê o fato de que é a música de homens vazios. Bonita, sim, e freqüentemente – à sua maneira. Ê infinitamente engenhosa, profissional e tem certas idéias musicais encantadoras. Mas é tão oca, no fundo, quanto uma bula papal. Ê música de homens de segunda classe. 

Beethoven desprezava todos estes artifícios: não precisava deles. Seria difícil pensar em outro compositor, mesmo de quarta classe, que trabalhasse com um material temático de tão pouco mérito intrínseco. Apropriava-se de canções onde as encontrava; construía-as a partir de fragmentos de motivos folclóricos; à falta do resto, contentava-se com uma simples frase ou algumas notas. Via tudo isto como material em estado bruto; seu interesse se concentrava em como usá-lo. Era a este uso que ele emprestava o impressionante poder do seu gênio. Sua engenhosidade começava por onde outros haviam parado. Suas estruturas mais complicadas retinham a clareza abrangente do Parthenon. E, delas, tirou uma espécie de sentimento que nem os gregos poderiam igualar; Beethoven era preeminentemente um homem moderno, sem o menor traço de barbárie. Em sua música havia o alto ceticismo característico do século XVIII, mas ele lhe insuflou o novo entusiasmo, a nova determinação de desafiar e bater os deuses, típicos do século XIX. Quanto mais envelheço, mais me convenço de que nunca houve um fenômeno tão portentoso na história da música quanto a primeira apresentação pública da "Heróica", a 7 de abril de 1805. Os redatores do programa camuflaram a obra com tantas camadas de especulações banais que seus méritos intrínsecos quase foram esquecidos.

Seria ela dedicada a Napoleão I? E, se era, a dedicatória seria sincera ou irônica? E daí? – quero dizer, e daí, para quem não seja surdo? Ela poderia ter sido dedicada a Luís XIV, a Paracelso ou a Pôncio Pilatos, sem fazer a menor diferença. O que a torna digna de discussão, hoje e sempre, é o fato de que, logo na primeira página, Beethoven atirou seu chapéu na arena e proclamou sua imortalidade. Sem concessões, sem pontes fáceis com o passado. A Segunda Sinfonia fica quilômetros para trás. Nascia uma nova espécie de música, cheia de desafios. Sem introduções melífluas ou conciliatórias; sem rodeios preparatórios para levar a platéia no bico e dar tempo ao regente para encontrar o seu lugar na partitura. Nada disso. Uma furiosa colisão da tríade tônica saía do silêncio e, de repente, sem pausa, a primeira exposição do primeiro assunto – amargo, dominador, áspero, rouco e, curiosamente, belo – com seu impressionante choque contra o elétrico dó sustenido. A carnificina começava cedo; estávamos ainda apenas no sétimo compasso. No 13º e 14º, o incomparável rolar da escala em mi bemol – e o que se seguia era tudo que já havia sido grande estilo, talvez tudo que "será "dito, sobre como fazer música em grande estilo. 

Tudo que se fez depois, inclusive por Beethoven, foi à luz daquele exemplo perfeito. Cada compasso da música moderna honesta tem uma dívida de gratidão para com aquele primeiro movimento. O resto da Heróica é beethovenês, mas não a sua quintessência. Diz a lenda que a marcha fúnebre só foi incluída por que era uma época de morticínios por atacado, e marchas fúnebres estavam em moda. Sem dúvida, aquela platéia da estréia em Viena, chocada e confusa pelos sucessivos desafios do primeiro movimento, deve ter ficado grata pela lúgubre melodia. Mas, e o "scherzo"? Outra perversa investida contra o pobre Haydn! Dois gigantes em luta diante de uma orquestra de anões soprando como loucos. Não admira que um sincero vienense gritasse das galerias: “Eu pagaria mais um "kreutzer "se esta coisa parasse!”. Bem, finalmente parou e então veio algo mais tranqüilizador – um tema com variações. Todos em Viena conheciam e adoravam os temas com variações de Beethoven. Ele era, de fato, o mestre dos temas com variações. Mas havia um coringa entre as cartas. As variações ficaram mais e mais complexas e surpreendentes. Coisas estranhas começaram a acontecer e aqueles exercícios tradicionalmente educados tornaram-se tempestuosos, temperamentais, cacofônicos e trágicos. No final, um áspero e exigente tumulto de acordes – era a "Sinfonia em Dó Menor" projetando a sua sombra. Deve ter sido uma grande noite em Viena. Mas, talvez, não para os próprios vienenses. Eles tinham ido ouvir “uma nova sinfonia em ré sustenido” (sic!). E o que encontraram no "Theater-an-der-Wien "foi uma revolução.– 1926-

HL Mencken -  Crítico e jornalista americano - 1880-1950

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Façam parte desta revolução. Vamos ouvir esta engenhosa obra numa execução memorável de Gunter Wand


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Paris! Um acalanto!

Maurice Ravel - 1875-1937
Silêncio! Mudo! Um afagar da noite e do dia fantástico. Tanto para aprender. Tanto para ouvir. Tanto para ser, compartilhar. Um mundo de música que não cabe no peito. Paris de Satie, de Debussy e de Ravel...............e de tantos outros mestres..........um cheiro de lembranças...............nas ruas que passei, ao sentir o poema que se ajoelha na Liberdade. E os sons que tanto me levam para outras jornadas, para paralelos de universos que muitos fecham os olhos ou desconhecem. Ahhhhhhhhhh Paris!

Duas gerações de artistas máximos - Martha Argerich e Lang Lang e com eles o presente especial de Maurice Ravel - A Suíte Mamãe Ganso! Uma carícia neste momento de tanto silêncio...........Que invada as almas, que acalme as dores, que leve ao paraíso da arte, todos que sofrem!

De joelhos, olhos fechados e pronto para o voo sem fim no mundo dos sons..........compartilho aqui esta maravilha:

https://www.youtube.com/watch?v=yoy0W37sHRs

Martha Argerich

Lang Lang






terça-feira, 3 de novembro de 2015

Parede Falante - Eduardo Galeano

Fiquei arrebatado pelo "O Livro dos Abraços" do escritor e poeta Uruguaio - Eduardo Galeano.

Esta Parede Falante vem ventando o que hoje acredito que o mundo mais precise: - Ser abraçado em sua totalidade. As pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras e a educação anda cada vez mais superficial e solitária em sua principal função que deveria ser - Educar.

Este livro vem como um arrebatamento aos tempos de solidão que estamos vivendo. E se a vida aqui é tão urgente, acredito que a todo momento em que nosso poeta uruguaio escreve, tudo vira obra de arte e como ensina....

Eduardo Galeano - 1940-2015

E assim compartilho o que chamo de Música em palavras:

A Função da Arte/ 1

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai, enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!


O mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
— O mundo é isso — revelou — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.



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Acredito fortemente nestas duas maravilhas acima. É preciso "olhar", olhar no sentido maior. Olhar imensamente, dos lados, pelo todo, se perder no mar.

Ahhhhhhhhhhh "mundo"!

Obrigado Galeano por estes diamantes em palavras e que você descanse em paz no reino da Arte!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Pérolas do Rocha! Zelenka!

É com muita alegria que apresento-lhes a estréia em nosso blog das "Pérolas do Rocha". Meu amigo e pesquisador incansável da arte e da música, Ailton Rocha, nos revela sua mais nova descoberta, a obra do compositor da Boêmia - Jan Dismas Zelenka, Abaixo vocês poderão desfrutar um pouco deste universo num belo texto de apresentação e introdução deste importante compositor barroco.


(Não deixem de conferir outros textos imperdíveis sobre música e arte no blog Palavra e Melodia de Ailton Rocha.)
http://palavraemelodia.blogspot.com.br/


Vamos ao tesouro! Vamos ao texto!
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Jan Dismas Zelenka(1679-1745)



A ‘Missa Votiva’ de Zelenka

(ailton rocha)

“Esta obra não foi criada como encomenda, o que a torna um exemplo ainda maior de arte vinda da necessidade mais íntima da alma. Escrevera-a Zelenka como agradecimento ao Criador pelo recuperação da saúde, após um doloroso período de enfermidade...”



Um excelente compositor que descobri por esses dias é Jan Dismas Zelenka (1679-1745). Apesar de exumado no século passado, nos anos 50, ainda hoje continua sem a atenção que merece. Essa pouca vontade de nossa era a um dos mais originais compositores barrocos é uma das maiores injustiças que já vi. Caso não conheçam, recomendo-o veemente.

Surpreendentemente original, Zelenka estrutura a orquestra como os compositores do século 20. Ao ouvi-lo em uma programação de rádio, tive quase a certeza de que era compositor moderno, da época de Poulenc. Uma das características que mais distingue Zelenka de seus contemporâneos, além do inventivo contraponto, é o ritmo, com enfoque no grave para se destacar entre o agudo dos violinos. Nota-se na estruturação de sua orquestra um papel importante permitido às violas da gamba, porque raramente usava os violoncelos. No baixo contínuo é que há uma persistente marcação – dançante, eu diria – inusitada na música sacra. As síncopes quase polirritmicas tornam o som diferente e único. Ritmos assim seriam explorados quase à exaustão só pelos compositores dos princípios e meados do século 20. E Zelenka, sendo ao mesmo tempo moderno, levando em conta a época em que viveu, soa na polifonia também como um renascentista erudito. De forma que nesse compositor entrelaçavam o passado e o futuro, admiravelmente. Eis o estilo de Zelenka: um Palestrina do século 20, embora vivesse nos meados do século 18, contemporâneo de Albinoni, Vivaldi, Telemann, Bach e Handel. Telemann era amigo particular dele. E Bach que também o conhecia, admirava-o imensamente. Ao ler o ‘Magnificat em Ré maior’ pela primeira vez, disse: trata-se de um excelente compositor. É avaliação de Bach. Acho que não preciso dizer mais nada. E pasmem! Ainda hoje Zelenka continua quase desconhecido para a maioria. Mas quem o conhece não economiza admiração.

Sabe-se pouco da vida pessoal de Jan Dismas Zelenka. Nascido em Praga, na época pertencente à Boêmia, foi educado em colégio jesuíta que consolidou a sua fé católica, à qual continuou fiel a vida toda. Essa sinceridade religiosa é nítida na obra do compositor. Após estudos em Viena e na Itália, fixou-se em Dresden, Alemanha, como obscuro contrabaixista na orquestra da corte; na verdade, o seu instrumento era o 'violone', do qual originou-se o contrabaixo moderno. Iniciando relativamente tarde como compositor - com a idade de 30 anos - dedicou-se quase que exclusivamente à música sacra, com algumas poucas incursões pelas obras orquestrais (5 Capriccios, concertos e ouvertures) e de câmara (os famosos 6 Trios Sonatas, de 1721, muito apreciados pelos contrabaixistas). No gênero coral sacro, com mais de centena e meia de títulos, distinguem-se as 22 missas - algumas delas, diríamos,  são as mais belas e originais do período Barroco - apenas superadas pela ‘Missa em Si menor’ de Bach - o que não é pouco pois essa missa colossal de Bach, verdadeira catedral invisível, é um dos maiores monumentos artísticos da humanidade. Da vida pessoal de Zelenka há poucos registros. Sabe-se que nunca se casara, não deixou filhos nem discípulos. Pessoas que com ele conviveram testemunham que era “homem bom e pacífico, sábio e muito religioso”. Em Dresden viveu mais da metade da vida. Das pouquíssimas vezes que viajara foi para apresentar em Praga uma de suas obras, a única escrita para palco: ‘Sub Olea Pacis’ (1723), uma espécie híbrida de oratório em latim, ópera e música incidental com danças. Essa obra, atualmente aclamada como uma obra-prima, na época foi o único sucesso do compositor em público.       

Hoje as Missas de Zelenka são consideradas o ponto mais alto na totalidade de sua obra, cujo pináculo está nas ‘Missa Votiva’ (1739), ‘Missa Dei Patris’ e ‘Missa Dei Filii’ (1740), e ‘Missa Omnium Sanctorum’ (1741), todas escritas na última década de sua vida; sendo que as três últimas formam uma trilogia que o compositor não ouviu em vida, a não ser no coração, pois só foram apresentadas duzentos anos depois. Recomendo-as. Realmente, de uma inteligência musical impressionante, de uma originalidade como poucas no tratamento das vozes polifônicas do coro em contraste com os solistas homofônicos, às vezes no estilo alegre do 'rococó', às vezes dramáticos como em uma ópera ou intimistas como em uma prece, ou em tom popular, utilizando as danças folclóricas da Boêmia, seu país de origem; tudo isso acompanhado ora pelo uníssono das cordas em tessitura cromática, ora pelos diálogos contrapontísticos de violinos e violas. Negar a beleza estonteante dessa música é o mesmo que negar o brilho do sol.

Tornei-me um admirador incondicional das missas desse compositor boêmio-tcheco. Para compreenderem que não estou errado, sugiro que ouçam atentamente a ‘Missa Votiva’ nesta admirável interpretação do jovem regente Václav Luks. Esta obra não foi criada como encomenda, o que a torna um exemplo ainda maior de arte vinda da necessidade mais íntima da alma. Escrevera-a Zelenka como agradecimento ao Criador pelo recuperação da saúde, após um doloroso período de enfermidade, semelhante ao que fizera Beethoven, quase um século depois, no movimento lento do Quarteto de Cordas Op.132.

O júbilo do coro que há na ‘Missa Votiva’ e os momentos etéreos dos solistas, principalmente a soprano, são água cristalina, poesia pura, expressão artística da mais alta sinceridade - uma comovente certeza de que uma Inteligência Suprema paira sobre nós, que nos protege e ampara nos momentos mais difíceis da jornada.  

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Acredito que todos ficaram curiosos.................vamos entrar então na música deste magistral compositor.

Ouçam sem moderação.